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Praça 8 de Maio

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Na atual Praça 8 de Maio existiu a antiga Praia da Reboleira, formada por um dos três braços de entrada do Mondego na Figueira da Foz. Em 1764 o local era conhecido por Rocio das Reboleiras, ou Rotunda da Reboleira, e, em 1784, conhecido por Praia do Rio.


A Praia da Reboleira, ou Praia do Rio, era formada por um enorme braço de água que nas marés dificultava as ligações com as atuais ruas Direita do Monte, Ferreiros, Combatentes e Dr. José Jardim.
Mas, em 1784, iniciou-se o aterro da Praia da Reboleira, as obras ficaram concluídas em 1789, tendo-se obtido uma enorme praça que se passou a denominar Praça Nova da Reboleira, mais tarde conhecida por Praça Nova da Alegria, depois Praça Nova e Praça 8 de Maio a partir de 1880.

O aterro concluído em 1789 incluiu um enorme paredão, construído na zona onde está hoje o quiosque, que limitava o rio da praça. No século XIX, construiu-se um segundo paredão, na zona do edifício onde foi a Singer. E, no século XX, construiu-se o atual paredão que limita o Mondego.


No âmbito da requalificação da zona histórica efetuada em 2018, que incluiu intervenções na Praça 8 de Maio, foram encontrados achados arqueológicos do cais da antiga Praia da Reboleira, nomeadamente parte da estrutura do paredão que sustentou a obra concluída em 1789.


Nos séculos XVIII e XIX, a Praça Nova foi a zona principal da cidade. Aqui funcionaram armazéns de vinhos, o Banco Mendes & Irmão, o Café Central, a Biblioteca, a Casa Havaneza, o Hotel Aliança, o Hotel Figueirense e o Hotel Barba Azul.
Aqui parava o Americano, “despejando a gente que vinha de Buarcos, da praia e do Bairro Novo”, uma praça com agitação e beleza, incomparavelmente descrita no romance do figueirense Gaspar de Lemos, “A filha do Senhor Silva”.
Esta importante praça dos séculos XVIII e XIX passou a denominar-se PRAÇA 8 de MAIO a partir de 1880. Vamos saber porquê.


Em 1826, a 10 de março, quando morre D. João VI, supostamente envenenado, inicia-se uma trágica guerra civil no país, pela posse do trono, que só terminaria em 1834, sendo opositores os seus filhos D. Pedro e D. Miguel.
Em 1826, D. Pedro, a viver no Brasil (imperador de 1822 a 1831), ascendeu ao trono de Portugal, onde permaneceu por 2 meses, abdicando de imediato para a sua filha D. Maria II, então com 7 anos.
Ainda em 1826, D. Maria II, uma criança de 7 anos, casa com o seu tio D. Miguel, com 24 anos.
Em 1828, D. Miguel depõe D. Maria II, sua esposa e sobrinha, e é proclamado rei em 23 de junho.
De 1828 a 1834, no reinado de D. Miguel, desenvolve-se uma feroz guerra civil, pela tomada do trono, com reflexos na Figueira da Foz, da qual sai derrotado D. Miguel.
Em 1834, a 8 de maio, as tropas liberais fiéis a D. Pedro, comandadas por Charles Napier, maioritariamente constituídas por marinheiros ingleses, desembarcam na enseada de Buarcos e avançam sobre a Figueira da Foz, entretanto abandonada pelo exército absolutista fiel a D. Miguel.
A Câmara Municipal é demitida, tendo sido empossada uma equipa presidida pelo Juiz José da Costa Dinis e pelos Vereadores José Tavares de Goes Nobre, João Fernandes Tomás, Francisco Luís Afonso da Costa e Joaquim Malheiro de Melo que geriu o município até às eleições de 19 de setembro, ganhas por Joaquim da Silva Soares.

As tropas de Napier seguiram da Figueira da Foz para Leiria, Ourém e Torres Novas e o general espanhol José Ramón Rodil y Campillo entrou em Portugal através da Beira e Alto Alentejo com uma expedição de 15 mil homens também em apoio de D. Pedro.
Em 1834, a 16 de maio, dá-se a derradeira batalha entre as tropas fiéis aos irmãos desavindos, D. Miguel e D. Pedro, exatamente na Asseiceira, próximo de Tomar.
As tropas liberais de D. Pedro saem vitoriosas, a paz é assinada em Évoramonte e D. Miguel parte de Sines para o exílio no dia 1 de junho de 1834, donde só retornaria em 1967, quando os seus restos mortais foram trasladados do mosteiro de Engelberg, em Gossenbach, para o mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.
D. Pedro assumiu a regência mas, pouco tempo depois, em 18 de setembro de 1834, sua filha D. Maria, com apenas 15 anos, foi aclamada rainha e o casamento com o seu tio D. Miguel foi anulado.
Em 1880, a Praça Nova passou a chamar-se PRAÇA 8 DE MAIO, para comemorar a entrada vitoriosa do exército liberal na Figueira da Foz a 8 de maio de 1834 (o mesmo ocorreu em Coimbra onde também existe uma praça com o mesmo nome).


Até finais do século XIX, princípios do século XX, aqui funcionaram muitos serviços públicos, a Câmara Municipal, a Administração do Concelho, o Tribunal, Cartórios, Contadoria do Juízo, Conservatórias e Estação Telegráfica.
O Almanaque da Praia da Figueira, de 1878-1879, chama à Praça Nova a “Boulevard 8 de Maio”, escrevendo: “É actualmente o mais elegante bairro da Figueira à beira do Mondego, nos terrenos ainda há pouco conquistados a este rio. Compõe-se de ruas largas, elegantes, onde as construcções se multiplicam com uma rapidez prodigiosa”.


Em 1891, a 12 de março, em plena crise financeira e económica do país, surgiu na Praça 8 de Maio a casa bancária “Mendes & Irmão” num edifício de arquitetura relevante, recentemente demolido.
Em 1918, a 1 de julho, uma filial do Banco Nacional Ultramarino instala-se no edifício da casa bancária “Mendes & Irmão”, tendo encerrado em 2001 quando se fundiu com a Caixa Geral de Depósitos.


Em 1907, a 22 de setembro, na Praça 8 de Maio, foi colocada a primeira pedra do monumento erigido em honra de Manuel Fernandes Tomás, da autoria do escultor portuense Fernandes de Sá.
Esta cerimónia foi presenciada por 2.000 pessoas e contou com discursos dos republicanos António José de Almeida, João Pinto dos Santos, Carlos Borges, António Fontes e Mário Monteiro.


Em 1911, a 24 de agosto, quando se comemoravam 91 anos da revolução liberal, foi inaugurada a estátua de Manuel Fernandes Tomás, o “patriarca da liberdade” e o “regenerador da pátria”, líder da revolução de 24 de agosto de 1820 e principal redator da Constituição de 1822.
Em 1988, a 24 de Agosto, perante uma enorme multidão e com a presença do Presidente da República, Dr. Mário Soares, os restos mortais de Manuel Fernandes Tomás chegaram à sua terra natal, onde repousam sob a sua estátua, bem perto do local onde nasceu, na Rua dos Tropeções, a atual Rua 31 de julho.

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AUTOR

Fernando Curado
Natural do Alqueidão, Figueira da Foz, Fernando Curado é um engenheiro civil aposentado, especializado em engenharia sanitária. Esteve sempre ligado a entidades públicas. Atualmente reside em Beja. Há 10 anos, assumiu estudar a história da Figueira da Foz e divulgá-la de forma sintética. Já o faz desde 2015. E está só no início.

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