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Uma Rota da Mulher no Espaço Público da Figueira da Foz

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Largo-Margarida-Mendonca-Barraca-destaque

ATENÇÃO: ESTE É UM TRABALHO EM DESENVOLVIMENTO. AJUDE-NOS A CONTAR A HISTÓRIA DESTAS MULHERES. SE TIVER INFORMAÇÃO SOBRE AS MESMAS (DADOS BIOGRÁFICOS OU IMAGENS) OU VIR QUE FALTA AQUI ALGUM TOPÓNIMO, ENVIE PARA geral@meetfigueira.com

A ideia inicial deste artigo era produzir uma rota pela toponímia feminina da Figueira da Foz. A pretexto do Dia da Mulher, homenagear essas figuras e construir um passeio pela história das mulheres do concelho. Acabou por dar nisto: um alerta e um apelo a quem manda nestas coisas, para que comece a mudar a tradição toponímica patriarcal e se abrace de uma vez por todas a igualdade de género também nos nomes dos nossos espaços públicos.

Por estes dias lia-se a frase «o apagamento histórico do papel de mulheres na sociedade portuguesa» numa newsletter do excelente projeto jornalístico Fumaça, que chamava à atenção para a invisibilidade histórica e toponímica do género feminino noutras cidades. Infelizmente, também se aplica à Figueira da Foz. Mas temos o suficiente para uma pequena rota.

O que é um nome numa rua? Que valor tem um topónimo?… Praças, avenidas, travessas, largos, esses e outros pedaços da nossa geografia comunal são dedicados a um marco da paisagem, um acontecimento, um indivíduo, um ofício, esse sítio passa a ser também parte da nossa memória cultural coletiva e – corações ao alto – parte da instrução dos vindouros acerca de quem por aqui andou a construir e a engrandecer a terra que pisam e a comunidade a que pertencem. A toponímia, além da inestimável função postal, é no entanto e sobretudo uma homenagem que uma comunidade presta a algo ou alguém que marcou a terra, regra geral positivamente.

Grande parte dos topónimos são relativos a motivos naturais, uma Figueira da Foz ou uma Rua do Monte Alto, a motivos sacros, a Rua de São Tomé, a efemérides, o Largo 9 de Abril e Praça 8 de Maio, a outras cidades, Rua de Coimbra, a um incontável número de razões se devem os nomes das ruas, das praças e das povoações – e em todas as cidades, já agora, as mais bonitas são sempre as ruas da Liberdade -, mas para este caso o que nos interessa são os topónimos dedicados a pessoas, ruas, praças, avenidas, travessas e largos com nome de gente.

Rota da Mulher da Figueira da Foz
Largo Maria Jarra (Buarcos)

A toponímia é também regra geral um parente pobre do património cultural imaterial das comunidades, que urge valorizar, inclusivamente como recurso turístico. E como no MeetFigueira somos curiosos e temos como missão promover esses mesmos patrimónios, fomos pesquisar e esmiucámos todas as ruas, avenidas, travessas, largos e praças do concelho em várias bases de dados, sobretudo no Sistema de Informação Geográfica Municipal – não garantimos que algo não nos tenha escapado, por isso, caso o leitor conheça mais alguma referência, por favor escreva-nos.

A toponímia, de facto, enquanto repositório valioso da memória coletiva do concelho e das várias comunidades locais que coabitam sob a sua bandeira, tem oferecido insights curiosos e ideias interessantes de trabalho de descoberta do território, como rotas. Uma das pistas curiosas diz respeito, então, às mulheres ou, atualizando o discurso, à (des)igualdade de género refletida no mapa do concelho.

E duas coisas sobressaem nesta pequena análise de género na toponímia figueirense:

  • Das poucas mulheres homenageadas por esta via e que realmente marcaram diretamente as comunidades (não contamos aqui Amália Rodrigues ou D. Maria), quase todas são professoras. Quase que daria para uma Rota das Professoras.
  • Em centenas de registos, são literalmente meia-dúzia as mulheres com direito a nome completo na toponímia da Figueira: a maioria são santas ou cidadãs que ficaram apenas eternizadas por serem Marias ou Isabéis – como a Rua da Laurinda, a Travessa da T’Iria ou até a Rua Professora Palmira -, sem direito a apelido. Já os homens, centenas, surgem sempre com toda a pompa epigráfica e, regra geral, antecedidos de uma vénia: Doutor (ou Prof. Doutor), Engenheiro, Comendador, Monsenhor ou Major Aviador, etc.. Seria preciso um mês para fazer no terreno a Rota do Homem da Figueira da Foz. Basicamente, as mulheres quase não existem na toponímia figueirense e – aqui vai apelo – será uma excelente ideia as autoridades públicas começarem a adotar uma prática de discriminação positiva neste assunto, para compensar tanto ano de silêncio no espaço público.

Deixaremos análises sócio-históricas para sociólogos e historiadores, ou jornalistas, mas eis a lista/rota (ver mapa em cima), de que excluímos santas e invocações marianas – exceção feita à Rainha Dona Isabel, que apesar de canonizada, foi efetivamente mulher e rainha de Portugal -, com todo o respeito pelas tradições religiosas, mas tratamos aqui de gente de carne e osso que residiu e trabalhou de facto nas comunidades, ainda que nem todas nesta comunidade como a divina Amália ou a Rainha “Educadora”.

ALHADAS

Rua Vale de Inês
Largo das Ricardinas

ALQUEIDÃO

Rua Professora Maria Rodrigues Morgado

BOM SUCESSO

Rua das Marianas
Rua Professora Palmira

BUARCOS E SÃO JULIÃO

Rua da Laurinda
Rua Professora Dona Salvadora
Rua Dona Maria
Largo Maria Jarra
Largo Dona Margarida Barraca
Largo Margarida Mendonça Barraca
Travessa da Laurinda
Rotunda Dra. Natércia Crisanto

FERREIRA A NOVA

Rua Professora Mónica Nora

LAVOS

Rua Professora Georgina Macário
Rua Rainha Santa Isabel
Largo O Cantito da Ti Neta
Travessa da T’Iria

MAIORCA

Rua da Tecedeira
Rua Maria Amada

MARINHA DAS ONDAS

Rua da Cecília
Rua Dona Filomena
Rua Professora Maria Isabel de Andrade
Rua Rosa Clara
Travessa Maria Roque

MOINHOS DA GÂNDARA

Rua da Gonçala

QUIAIOS

Rua Professora Preciosa da Costa Maia
Parque Infantil Rosita Nogueira

TAVAREDE

Rua Violinda Medina e Silva
Rua Luísa Parracho
Rotunda Maria Clara
Largo Dona Amália de Carvalho
Avenida Drª Cristina Torres
Rua Maria Robala
Rua Maria do Saltadouro
Rua Maria Olguim
Avenida Amália Rodrigues
Beco da Laurinda

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AUTOR

João P. Cruz
Consultor de comunicação territorial e patrimonial mas tudo lhe interessa. Estudou arqueologia, foi jornalista, biógrafo, ajudante de cozinha, ghostwriter, operacional do ICNF e livreiro. Integra desde 2018 equipas de classificação patrimonial (Nacional e UNESCO) e de projetos de desenvolvimento turístico, cultural e económico local. Está na luta dos territórios sustentáveis e inteligentes. Nasceu em Coimbra, vive na Figueira da Foz há 18 anos e é do mundo. É também co-fundador da MeetMunda Inovação e Turismo, empresa-mãe da marca MeetFigueira.

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