Viver a Figueira 12 meses por ano

Os “banhistas de alforge” da Figueira da Foz

Nos finais do século XIX a praia da Figueira tinha cerca de 350 barracas alinhadas, “de pano alvadio”. Nas esplanadas e rampas de acesso à praia vendiam-se “brinquedos, barquinhos de lata, baldes, pás, pregos, e de mistura camisolas, óculos de cor, bonés de folha pintada, recordativos da praia, panos de rendas, bordados vistosos e cadeirinhas de encosto”.

Havia os gelados Águia, os gelados Jamor e a bolacha americana. Cada bolacha custava 5 tostões e dava direito a jogar na roleta que havia na tampa da lata das bolachas. Com um pouco de sorte, podíamos ter mais de uma bolacha pelos mesmos 5 tostões!

Havia regatas internacionais, tiro aos pombos, concursos hípicos, provas de natação, “hockey”, touradas, ténis, patinagem, bailes diários, passeios fluviais, aluguer de bicicletas, atletismo e natação.

Os banhistas chegavam nos meses de julho a outubro.

A elite banhista vinha em agosto, e mesmo em setembro, os agricultores beirões apareciam no final das colheitas e das vindimas, de outubro a inícios de novembro, e os espanhóis chegavam de meados de julho a agosto.

Os mais pobres, “os banhistas de alforge”, surgiam em outubro e novembro, nos “comboios beirões”, provenientes “dos vinhedos do vale do Mondego, das charnecas fronteiriças, dos olivais albicastrenses, das abas da Serra da Estrela”, permaneciam por alguns dias, outros regressavam diariamente a casa, pela noitinha.

Os “banhistas de alforge” ficavam em toldos “que, no entanto, muito empertigados nos seus banquinhos, imitavam em tudo a das barracas, ou da saloiada do campo, que, ao domingo, com grandes cestas de farnéis, que escandalizavam as senhoras, invadiam a praia, para se banharem em grandes correrias e gritos, atirando água e areia aos corpos desajeitados em que antigos e bamboleantes fatos de banho eram resguardados por cuecas e por camisas femininas que se colavam à carne. Por isso, ao domingo, de manhã ou à tarde, as barracas ficavam vazias. E as famílias passeavam na muralha, sem descer à praia, ou juntavam-se aos pais nas mesas dos cafés.” (Sinais de Fogo – Jorge de Sena).

Os “banhistas de alforge”, chegados após o término das colheitas e das vindimas, em outubro e novembro, foram friamente descritos por Cardoso Martha (1882-1958) no Álbum Figueirense, em agosto de 1937: “Setembro moribundo, quando os derradeiros banhistas do mês fazem pachorrentos as malas para a abalada, saudosos das distracções que lhes oferecem uma praia engravatada, uma praia de bom-tom – ei-los que desembarcam”.

“São findas as colheitas e as vindimas: toca a partir! Durante os primeiros seis, oito, quinze dias de Outubro as terceiras classes (por não haver quarta) dos combóios beirões e extremenhos abarrotam desta fauna”.

“Descem ao mar, vindos dos vinhedos do vale do Mondego, das charnecas fronteiriças, dos olivais albicastrenses, das abas da Serra da Estrela. Coifam-se da capucha do Caramulo, vestem a jaleca alentejana, traçam o chale dos campos e várzeas coimbrãs. Alguns trajam saragoças e surrobecos, calçam tamancos, e usam chapeirões; outros, que já estiveram na cedade, trazem feltros escuros e botas de elástico, sua gravata berrante, seu trancelim de prata donde pende uma moeda de dez tostões de duas caras, e engancham no braço esquerdo um desajeitado guarda-chuva”.

“Às mulheres falta, em geral, a coquetaria instintiva que nos centros populosos até nas classes humildes se verifica: são desleixadas, bambalhonas, vestem mal e com mau gôsto. Das velhas não falemos; algumas parecem bruxas arrancadas a um episódio humorístico de Callot e aos sabás grotescos de Goya. É um mostruário vivo de tipos e indumentos.”

“Vêm apressados, remexidos, gritando pelos sacos e embrulhos, chamando-se a berros, não vá estramalhar-se alguma cabêça daquele rebanho humano, entre a confusão dos outros viajantes e o chorincar da criançada, súbito desperta nesse final de viagem ronceira”. (….) “Acarreta a maioria o mais necessário e convinhável para a quinzena ou o mês que determinou passar na Figueira. Vêm sacos, vêm cestos pejados de batatas, feijões, broas para a primeira semana, géneros de mercearia; trazem pipos de vinho, trazem até feixes de lenha. Roupa branca, muito pouca; basta mudá-la de quinze em quinze dias. E nos bons tempos em que eram mais em conta as casas vazias, até as enxergas traziam. Ficavam na terra os casebres, por não ser fácil tarefa carreá-los para aqui.”

“Eis o banhista de alforge, que não dava lucro à terra, que para não gastar demasias da verba orçamentada se deitava com as galinhas e com elas se levantava para ir ao banho ainda com lusco-fusco. O resto do dia ficava em casa: as mulheres na costura e os homens a ferrúngar num velho harmónio ou a jogar a feijões a bisca lambida, quando não voltavam com a família toda à praia, pela tarde fora, de calças e saias arregaçadas, a molhar as pernas…”.

“À noite, permitia-se o luxo duma volta pelas ruas do Bairro-Novo, pasmado ante os frequentadores dos casinos e cinemas, ou boquiaberto, a ver e ouvir da rua o movimento e a música dos cafés onde não entrava.”

“Mais civilizado está agora o alforgista. Dantes, nem alugava barraca: despia-se nos rochedos onde a fortaleza de Santa Catarina assenta as muralhas, às vezes numa promiscuidade selvagem, primitiva. E, enfiado o calmeirão numa velha andaina de camisola e ceroulas de negalho, e a companheira num chambre e saia branca, lá iam corajosamente pegar as ondas de cara”.

“O mais pitoresco era o regresso às rochas: os homens de cabelos empastados e escorrentes, elas, de saias coladas às pernas, uns e outros de olhos vermelhos do salgado, a bater o queixo…”.

“O lápis de Bordalo, curioso destes acepipes etnográficos, deixou um dia, penso que nas páginas de O António Maria, um esquisso flagrante destes tipos.”

“Como não vinha para se divertir, o banhista outubreiro tomava pontualmente seu banho diário, quer o sol esplendesse, quer chovessem pedras. E até – vá lá um pouco de má língua! – alguns se banhavam por atacado”. “Quero dizer: se o médico terrunho lhes receitasse, por exemplo, vinte banhos, tomavam dois por dia, um de manhã outro à tarde, para reduzir economicamente a demora a dez dias”.

Com a chegada dos “banhistas de alforge” iniciava-se o Inverno, como então se dizia: “Olha o banhista de alforge que ainda agora vem e já é inverno!”.

(imagens do espólio do autor e do arquivo do Município da Figueira da Foz)

AUTOR

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Fernando Curado

Natural do Alqueidão, Figueira da Foz, Fernando Curado é um engenheiro civil aposentado, especializado em engenharia sanitária. Esteve sempre ligado a entidades públicas. Atualmente reside em Beja. Há 10 anos, assumiu estudar a história da Figueira da Foz e divulgá-la de forma sintética. Já o faz desde 2015. E está só no início.