Viver a Figueira 12 meses por ano

Quinta das Olaias: De Palacete Aristocrático a Berço de Conhecimento

1 gostos

Quinta das Olaias Universidade de Coimbra Polo da Figueira da Foz

A Quinta das Olaias, na Figueira da Foz, inclui três edifícios, que valem pela sua grandiosidade arquitetónica, mas principalmente pela sua importância histórica, onde residiram figuras notáveis da vida nacional e onde se cruzaram eminentes nomes da política, da ciência, da cultura e do mundo empresarial.
Pertenceu a ilustres famílias, inicialmente os Silva Soares, depois os Condes de Monsaraz, António de Macedo Papança e o seu filho Alberto de Monsaraz, e seguidamente Manuel Caroça e os Lopo de Carvalho.

Os edifícios terão sido construídos em 1840, por José da Silva Soares (1776-1855), natural do Porto, filho de João da Silva Soares e de Mariana Angélica Silva, radicado na Figueira da Foz, onde exerceu cargos de relevo e a sua família foi influente na primeira metade do século XIX.

José da Silva Soares nunca casou, vivia com as suas quatro irmãs, era um homem culto e viajado, e por motivo de negócios viveu também em Hamburgo, Londres, no Brasil e em Lisboa (de 1824 a 1837).
Cerca de 1887, a Quinta das Olaias seria vendida a Joaquim António Simões (1817-1905), o maior comerciante da Figueira da Foz do século XIX, cuja filha, Amélia Augusta Fernandes Coelho Simões (1867-1960), casou em 1888 com António de Macedo Papança (1852-1913), Conde de Monsaraz, empresário, escritor, poeta e político, filho dos abastados agricultores alentejanos Joaquim Romão Mendes Papança e Maria Gregória de Macedo.

António Papança e sua esposa Amélia Augusta remodelaram a casa principal da Quinta das Olaias em 1888, data do seu casamento, mantendo-se a sua traça até aos nossos dias.

Alberto de Monsaraz herdou a Quinta das Olaias de seus pais, António Papança e Amélia Augusta, a qual vendeu ao Dr. Manuel da Fonseca Caroça (1871-1945), dentista, corretor de mercadorias e homem de grandes negócios, casado com Virgínia Antoniette d’Abreu Caroça, pai de Fernanda Abreu Caroça (1898-1987), filha única, proprietária e grande administradora da Quinta de Alorna, avô de Fausto Lopo Caraça de Carvalho (1923-1994), escritor neo-realista, e bisavô de Maria João Mendonça Lopo de Carvalho (1962), professora e escritora, que publicou no corrente ano de 2021 um livro com o título “O Bisavô” em homenagem aos 150 anos do nascimento do Dr. Manuel da Fonseca Caroça.

Fernanda Abreu Caroça (filha do adquirente) casou com o Prof. Dr. Fausto Patrício Lopo de Carvalho (1890-1970) e a Quinta das Olaias ficou nesta família até que a vendeu em 1999 ao município da Figueira da Foz, então (e agora) presidido pelo Dr. Santana Lopes.

Em 14 de dezembro de 1999, 111 anos após o casamento de António Papança com Amélia Augusta, a Câmara Municipal da Figueira da Foz adquiriu a Quinta das Olaias à família Caroça/Lopo de Carvalho, pelo preço de 370.000 contos (1.850.000 euros), construindo, na zona de bosque, o Centro de Artes e Espetáculos (CAE), com projeto do arquiteto Luís Marçal Grilo.

No ano seguinte à inauguração do CAE, a 7 de novembro de 2003, decorreu nesta Quinta a XIX Cimeira Ibérica com a presença dos Primeiros Ministros de Portugal e Espanha. Os três edifícios existentes, do tempo de José da Silva Soares, são compostos por corpos justapostos, o primeiro retangular, ao qual se justapõe um segundo corpo em L, e um terceiro também de planta retangular, ligeiramente irregular.
O edifício principal apresenta um longo frontispício dividido em dois pisos, separados por friso, com a fachada tardoz exibindo um terceiro piso, correspondente à cave.

Para além desta casa principal, há ainda um chalé de telhados pontiagudos e vãos com verga em empena, inspirado na arquitetura nórdica.

O CAE, situado a oeste da edificação principal, foi construído pelo consórcio Sopol SA / Construtora Abrantina / Siemens, ficou concluído em 2001, custou aproximadamente 2.000.000 contos (10.000.000 euros) e foi inaugurado em 2002. É um excecional edifício, com um auditório de 800 lugares, sala de cinema com 200 cadeiras, auditório ao ar livre, sala de exposições temporárias, centro pedagógico, restaurante, ligação ao Museu Municipal e estacionamento subterrâneo com 1.500 lugares.

Como atrás referimos, pessoas ilustres habitaram a Quinta das Olaias, durante quase dois séculos, aqui se escreveu da melhor poesia e literatura, aqui se desenvolveram negócios, se arrumaram casamentos, figuras notáveis a frequentaram, aqui reuniram políticos e escritores e aqui se tomaram decisões com impacto em Portugal e na Europa.

No final do século XIX, Júlio Dantas, João de Barros e João de Deus eram visitas frequentes da Quinta das Olaias, tendo como anfitrião o distinto poeta, escritor e político António Macedo de Papança.
No início do século XX, António Sardinha, Hipólito Raposo e outros, aqui se juntaram com o anfitrião Alberto de Monsaraz (1889-1959), filho de António Papança, resultando desse encontro a criação da “Nação Portuguesa”, órgão do Integralismo Lusitano.

Alberto de Monsaraz vendeu a Quinta das Olaias ao Dr. Manuel da Fonseca Caroça, dentista e empresário, um homem com grande fortuna, “colecionador” de quintas e palácios, proprietário não só da Quinta das Olaias, na Figueira da Foz, como também da Quinta da Alorna (1918), em Almeirim, da Quinta das Águias (1918), na Rua da Junqueira em Lisboa, e do Palacete Ribeiro da Cunha (1920), no Príncipe Real em Lisboa.

Fernanda Abreu Caroça (1898-1987), filha única do Dr. Manuel Caroça (1871-1945), foi quem herdou a Quinta das Olaias, tendo casado com o Prof. Dr. Fausto Patrício Lopo de Carvalho, filho de Lopo José de Figueiredo Carvalho (1857-1922), tisiologista na Guarda.

O então proprietário Prof. Dr. Lopo de Carvalho foi um eminente médico e cientista, braço direito do Prof. Egas Moniz, prémio Nobel da Medicina, Presidente da Comissão Executiva da Assistência Nacional aos Tuberculosos, de 1931 até 1938, Diretor da Clínica de Doenças Infeciosas do Hospital Escolar de Santa Marta e Presidente da União Internacional contra a Tuberculose.

O Prof. Lopo de Carvalho chegou a adaptar uma parte da casa da Quinta das Olaias a sanatório, pintando os vidros de branco, instalando camas articuladas e montando lavatórios em todos os quartos.
Por último, em 2003, importantes figuras políticas de Portugal e Espanha aqui se reuniram, no dia 7 de novembro, quando decorreu nesta Quinta a XIX Cimeira Ibérica, com a presença de vários ministros, como Durão Barroso e José Maria Aznar, onde foram tomadas importantes decisões ao nível da Europa, como a construção do TGV.

A antiga casa da Quinta das Olaias está classificada como imóvel de “Interesse Municipal” desde o ano de 2005 (Edital nº 138, de 7 de março de 2005, publicado em 15 de abril) e reúne hoje um magnífico acervo de obras de arte, desde mobiliário a cerâmica, doado ao município pelo colecionador António Rodrigues Caetano.

N.R.: A Quinta e o seu palácio, têm servido sobretudo como “sala de visitas” protocolar do Município, bem como espaço de cultura e visitação. Em 2022 o Município estabeleceu acordo com a Universidade de Coimbra no sentido de aqui ser estabelecido um pólo da instituição, designadamente para pós-graduações nas áreas do turismo, sustentabilidade e economia do mar, já a operar.

1 gostos

AUTOR

Fernando Curado
Natural do Alqueidão, Figueira da Foz, Fernando Curado é um engenheiro civil aposentado, especializado em engenharia sanitária. Esteve sempre ligado a entidades públicas. Atualmente reside em Beja. Há 10 anos, assumiu estudar a história da Figueira da Foz e divulgá-la de forma sintética. Já o faz desde 2015. E está só no início.

QUERO