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Figueira da Foz, uma Vista Oceânica

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O meu miradouro de perdição na Figueira da Foz não se encontra habitualmente nas listas dos “Melhores Miradouros da Figueira da Foz”. Não é oficial nem vem nos roteiros, mas já lá miro há, pelo menos, cinquenta anos. Não exatamente no mesmo sítio, porque o meu miradouro foi crescendo e hoje está mais longe – o que só o torna mais belo. Falo da ponta do Molhe Norte da foz do Mondego, aquele fim de caminho sobre as ondas, onde se ergue um pequeno farol riscado de vermelho e grafitti.

Era eu catraio e o meu pai pescador desportivo. Vínhamos de Coimbra e aquele molhe, que na altura acabava mais perto da praia, era um dos seus retiros de pescaria preferidos e foram frequentes as vezes em que o acompanhava nessas pescarias de fim de semana e feriados: ele tratava da saúde às borbas e aos achigãs e eu explorava as proximidades e ficava a olhar. Como hoje fico, mas mais distante da costa.

Não sou tão velho de ser do tempo em que as ondas rebentavam no Forte de Santa Catarina. O molhe, na sua versão mais curta, foi erigido em 1965, o que significa que nos anos 70 das pescarias paternas de fim de semana e feriados, já o areal se tornava imenso e as ondas iam rebentar longe. De facto, a areia branca cresceu cerca de 450 metros até aos anos 80, barrada pela muralha que protege a entrada da barra e que possibilitou o crescimento do porto comercial. Em 2010 voltou a ser aumentado, construíram mais 400 metros de molhe e a Praia da Claridade tem a distância que se conhece hoje: uma valente caminhada até ao mar. E uma valente dor de cabeça para as praias e comunidades a sul do rio, mas isso são outras conversas. O meu molhe norte não é consensual, estragou uma praia, estragou surf, perigou a navegação e outras malfeitorias que se lhe atribuem, mas veio, reconheça-se, trazer uma nova forma de ver a Figueira da Foz, uma nova perspectiva, como se num barco, como quem vem do oceano.

Ou seja, resumindo e voltando aos miradouros, quando eu era miúdo, a ponta do molhe norte da foz do Rio Mondego já existia, já era o meu “spot” de eleição para aventuras balneares e já então a vista era maravilhosa. Mas hoje é mais. Precisamente, lá está, porque a ponta está mais distante e permite outra panorâmica: uma visão única sobre a baia e sobre a cidade, a norte; e sobre toda a costa, a sul, a perder de vista.

O molhe norte, por si só, é uma das mais belas caminhadas que a Figueira da Foz tem para oferecer. Não será por acaso que não surge nos guias oficiais, afinal trata-se de uma estrutura do domínio portuário e marítimo e com algumas questões de segurança que se devem acautelar, sobretudo quem for de bicicleta (atenção à falta de proteções laterais e ao estado do piso, que não foi feito para rodas de lazer) ou leve crianças, mas são inúmeros os pescadores de cana e os passeantes que frequentam o molhe quando o tempo permite. Aviso de amigo: se estiver de borrasca evite este miradouro.

Seja como for, é uma caminhada magnífica mar adentro, mero quilómetro sobre as águas que culmina no mini-farol garrido. E mais vos digo que é, talvez, o pôr do sol mais romântico da Figueira da Foz, a rivalizar com o miradouro do Cabo Mondego, esse outro espanto para o olhar.

A ponta do molhe norte é o mais próximo que temos de olhar para a Figueira da Foz a partir de um barco, um barco de betão e pedra que não vai a lado nenhum. Com a cidade e os carros ao longe, é mais pura a música do mar a bater com vigor na proa do molhe; e o sol a desmaiar alaranjado no horizonte azul cria uma tela aquarelada única da costa norte, da Serra da Boa Viagem e do casario branco de Buarcos que se espraia com placidez pela encosta: a baia em todo o seu esplendor.

Por isso e mais, é tomar nota da hora de quando o sol se põe e é ver para crer. Por mim, vou lá sempre que posso e a todas as horas que posso, é sempre um sítio que deslumbra; e quase sempre sozinho, para pensar, para não pensar ou para ouvir música e ficar pasmado com a vista. Eleva-me a alma. A dois, no entanto, é sempre um passeio inspirador.

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AUTOR

João P. Cruz
Consultor de comunicação territorial e patrimonial mas tudo lhe interessa. Estudou arqueologia, foi jornalista, biógrafo, ajudante de cozinha, ghostwriter, operacional do ICNF e livreiro. Integra desde 2018 equipas de classificação patrimonial (Nacional e UNESCO) e de projetos de desenvolvimento turístico, cultural e económico local. Está na luta dos territórios sustentáveis e inteligentes. Nasceu em Coimbra, vive na Figueira da Foz há 18 anos e é do mundo. É também co-fundador da MeetMunda Inovação e Turismo, empresa-mãe da marca MeetFigueira.

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