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À Descoberta da Avifauna do Baixo Mondego e da Figueira da Foz

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Neste segundo fim de semana de maio, os entusiastas da natureza de todo o mundo celebram o Dia Mundial das Aves Migratórias – evento dedicado à sensibilização para a conservação das aves migratórias e dos seus habitats. Em 2024 destaca-se o papel fundamental dos insetos na alimentação destas aves e aborda-se o declínio alarmante das populações de insetos. Esta abordagem, sublinhe-se, pretende realçar a interligação dos nossos ecossistemas e a importância dos esforços de conservação.

O foco deste ano na importância dos insetos destaca, assim, a necessidade crítica de proteção dos habitats e de práticas sustentáveis. Os insetos não são apenas uma fonte vital de alimento para as aves, também desempenham papéis fundamentais na polinização e como indicadores de saúde ambiental dos territórios. O declínio das populações de insetos, devido à utilização massiva de pesticidas, perda de habitat e alterações climáticas representa, por outro lado, uma ameaça significativa para as aves migratórias.

Os esforços de conservação no Baixo Mondego, uma das mais férteis regiões agrícolas do país, com ênfase na produção em larga escala de arroz, têm-se concentrado sobretudo na redução de pesticidas, preservação ativa dos habitats naturais ou erradicação de espécies invasoras, sobretudo por parte dos Municípios e entidades estatais, bem como na promoção de práticas de agricultura biológica para apoiar as populações de insetos e aves.

A região do Baixo Mondego, onde se insere a Figueira da Foz, é reconhecida pela sua rica biodiversidade, especialmente em espécies de aves que atravessam continentes. Estas áreas húmidas, sobretudo a zona do estuário, fornecem ecossistemas cruciais para uma multiplicidade de magníficas aves migratórias, garantindo aos observadores de aves, fotógrafos e amantes da natureza um lugar na primeira fila para assistir a um dos eventos mais espectaculares da natureza. Conheça aqui alguns dos pontos altos do birdwatching na Figueira da Foz e arredores:


Locais de observação de aves

Reserva Natural do Paul de Arzila – Abrangendo parte dos concelhos de Coimbra, Condeixa e Montemor-o-Velho, esta reserva é um paraíso para os observadores de aves. A diversidade de habitats, incluindo zonas húmidas e bosques, suporta uma vasta gama de espécies e proporciona amplas oportunidades de observação de aves ao longo do ano.

Estuário do Mondego – Uma das zonas húmidas mais importantes da região, servindo como uma área vital para alimentação, reprodução e descanso de numerosas aves migratórias. Os observatórios e miradouros ao longo do estuário, sobretudo nas zonas das salinas de Lavos ou da bela Ilha da Morraceira, na margem esquerda, permitem a observação discreta dos comportamentos e interacções das aves.

Flamingos na Ilha da Morraceira

Lagoas de Quiaios e Bom Sucesso – Estas cinco lagoas costeiras a norte da Figueira da Foz, principalmente a maior e mais bem equipada para usufruto turístico, a Lagoa da Vela, são excelentes para observar aves aquáticas e limícolas. As dunas e pinhais circundantes, embora em grande parte consumidas por um grande incêndio há alguns anos atrás, também oferecem abrigo e oportunidades adicionais de observação de aves. Recordamos que a grande ciclovia Eurovelo Rota da Costa Atlântica passa nas proximidades destas lagoas, constituíndo um ponto de paragem e contemplação de excelência, já na paisagem dunar gandaresa.

Lagoa da Vela (freguesia de Bom-Sucesso)

Algumas Aves Migratórias do Baixo Mondego

Borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus) – Pequena ave limícola com uma plumagem distintiva em tons de areia e branco, que lhe permite camuflar-se perfeitamente no ambiente ribeirinho. Este pássaro é frequentemente encontrado ao longo de cursos de água mansos, onde procura pequenos invertebrados entre as pedras e a vegetação.

Corvo-marinho-grande (Phalacrocorax carbo) – Esta grande ave negra é frequentemente vista de pé com as asas abertas a secar. Os corvos-marinhos são comuns no Estuário do Mondego, onde podem ser vistos a mergulhar em busca de peixes. Nidificam e reproduzem-se em árvores e saliências rochosas perto de massas de água.

Pato-trombeteiro (Anas clypeata) – facilmente reconhecível pelo seu bico grande e espátula, adaptado para filtrar o alimento da água. Este pato destaca-se pela sua plumagem colorida durante a época de reprodução: os machos exibem uma cabeça verde brilhante, peito branco e flancos castanhos. Ave migratória invernante, chegando os primeiros indivíduos a partir de Agosto e permanecendo algumas aves entre nós até Abril. Podem encontrar-se, por exemplo, nas lagoas de Quiaios e Bom-Sucesso.

Garça-branca-pequena (Egretta garzetta) – Esta elegante ave, com as suas penas brancas imaculadas e porte delicado, é frequentemente encontrada ao longo das margens do estuário do Mondego. A garça-branca-pequena alimenta-se em águas rasas de pequenos peixes e insectos, epítome do delicado equilíbrio do ecossistema local.

Garça-real (Ardea cinerea) – Ave limícola grande, de pernas longas, com uma aparência marcante. Caracterizada pela sua plumagem cinza-ardesia, pescoço longo e bico em forma de punhal, fica imóvel à beira da água e observa a sua presa, principalmente peixes e pequenos anfíbios. A Garça-real é uma visão comum no Baixo Mondego e utiliza as zonas húmidas para alimentação e nidificação, construindo frequentemente grandes ninhos de paus em árvores perto da água. A sua presença indica um ecossistema aquático saudável.

Flamingo (Phoenicopterus roseus) – As salinas e lagoas perto de Figueira da Foz são agraciadas nestas alturas com a presença de grandes bandos de flamingos, uma das espécies mais espetaculares da região. Os seus tons rosados, que se devem a pigmentos existentes na sua alimentação de algas e crusáceos, acrescentam um toque de cor à paisagem, atraindo observadores de aves de todo o país.

Águia-pesqueira (Pandion haliaetus) – Frequentemente vista a pairar sobre o Rio Mondego, a águia-pesqueira é uma ave de rapina piscívora com uma técnica de mergulho distinta que cativa os observadores de aves. O estuário fornece uma abundância de peixes, tornando-o um local ideal de alimentação para estas aves de rapina durante o seu período migratório.


Um dia das aves… e dos insetos

O Dia Mundial das Aves Migratórias é um evento anual, celebrado no segundo fim de semana de maio, focado na sensibilização para a conservação das aves migratórias e dos seus habitats, e no aumento da consciência global sobre as ameaças que estas aves enfrentam. A campanha de 2024 destaca a importância dos insetos para as aves migratórias e aborda as preocupações sobre o declínio das populações de insetos. Em 2024, o evento é assinalado em duas datas: 11 de maio e 12 de outubro, harmonizando-se com a natureza cíclica da migração de aves nos diferentes hemisférios.

As aves desempenham papéis cruciais na polinização e no controlo de pragas. A falta de insetos perturba estas funções do ecossistema, e a sobrepopulação de certos insetos, sem os seus predadores naturais de penas, pode levar a surtos que prejudicam a saúde das plantas e a agricultura. A campanha de 2024 enfatiza, deste modo, a necessidade de medidas proactivas de conservação, incluindo a redução da utilização de pesticidas e fertilizantes, a transição para a agricultura biológica sempre que possível e a manutenção de áreas vegetais naturais que forneçam alimento e abrigo para aves e outras espécies.

O momento das migrações das aves, recorde-se, coincide por norma com o pico de abundância de insetos nos locais de paragem, fornecendo alimento essencial para repor as reservas de energia para a continuação da viagem.

A perda e perturbação das populações de insetos nos locais de reprodução e ao longo das rotas migratórias ameaçam a sobrevivência e o bem-estar das aves. As alterações aos espaços naturais, como florestas e pastagens, devido à agricultura intensiva e ao desenvolvimento urbano, e efeitos como a poluição luminosa, resultam em declínios nas populações de insetos, levando à escassez de alimento rico em energia e proteínas, o que pode impedir a migração e a reprodução das aves, enfraquecer o seu sistema imunológico, reduzir o sucesso reprodutivo e aumentar as taxas de mortalidade nas aves e nas suas crias.

Portugal é reconhecido como um dos principais destinos de observação de aves da Europa. Muitas aves reprodutoras chegam a Portugal vindas da África subsaariana em março e abril. No final do verão e no outono, estas aves migratórias embarcam em novas viagens épicas desde os seus territórios de reprodução em toda a Europa para zonas de invernada, geralmente em territórios africanos.

Nota: Ilustrações das aves produzidas pelo DALL-E, software da OpenAI que se baseia na inteligência artificial para gerar imagens a partir de textos descritivos.

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AUTOR

João P. Cruz
Consultor de comunicação territorial e patrimonial mas tudo lhe interessa. Estudou arqueologia, foi jornalista, biógrafo, ajudante de cozinha, ghostwriter, operacional do ICNF e livreiro. Integra desde 2018 equipas de classificação patrimonial (Nacional e UNESCO) e de projetos de desenvolvimento turístico, cultural e económico local. Está na luta dos territórios sustentáveis e inteligentes. Nasceu em Coimbra, vive na Figueira da Foz há 18 anos e é do mundo. É também co-fundador da MeetMunda Inovação e Turismo, empresa-mãe da marca MeetFigueira.

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