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A Páscoa na Figueira da Foz. Tradições Religiosas e Pagãs

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Páscoa na Figueira da Foz. Tradições pascais Figueira da Foz

Na Páscoa, a Igreja Católica celebra a ressurreição de Jesus Cristo, enquanto que os judeus festejam a libertação do povo hebreu da escravidão que sofreu no Egito cerca de 1280 a.C. Por isso, à Páscoa cristã chamamos de “Páscoa da Ressurreição”, sendo a Páscoa judaica a “Páscoa da Libertação”.

Determina a Igreja que após a comemoração efusiva do Carnaval se deve seguir um período de 40 dias com penitência, abstinência e reflexão, a que a Igreja designa de Quaresma, e que se inicia na 4ª Feira de cinzas (dia seguinte à 3ª Feira de Carnaval).

A Quaresma representa, portanto, um tempo de penitência e privação, uma pausa nos excessos cometidos durante o ano, excessos esses que incluem, segundo a religião católica, a privação de certos alimentos como a carne.

O dia de Páscoa foi estabelecido por decreto do 1º Concílio de Niceia, 325 d.C., coincidindo com o 1º Domingo depois da 1ª lua cheia do equinócio da Primavera, no hemisfério Norte, e do equinócio do Outono, no hemisfério Sul. Desta forma, o Domingo de Páscoa não ocorre sempre na mesma data, costumando ser no período de 22 de março a 25 de abril.

O primeiro Domingo antes do Domingo de Páscoa designa-se de “Domingo de Ramos”, nele se celebrando a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém, onde o povo festejava a Páscoa judaica (Pessach).

Em Jerusalém, Jesus foi recebido e aclamado por uma multidão que lhe agitava ramos de palmeira e lhe gritava “Hosana (Salva-nos, ó Senhor!)! Bendito é o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” A entrada de Jesus em Jerusalém marca o início do período conhecido como «Paixão», a «Semana Santa», que culminará com a crucificação e a ressurreição de Jesus.

A 5ª Feira Santa é o dia da Última Ceia, em que Jesus e os seus apóstolos comemoraram a Páscoa judaica, e o dia do Lava-pés. A 6ª Feira Santa coincide com o dia em que Jesus foi julgado, condenado e crucifixado no Monte do Calvário.

No Sábado Santo, Jesus jaz no túmulo, e no Domingo de Páscoa, Jesus ressuscita.

Na Figueira, era habitual na Páscoa a reunião das famílias, a ida à missa da Ressurreição, a realização de várias procissões, como a «Via Sacra», o «Senhor dos Passos», a «Procissão dos Ramos» e o “Enterro do Senhor”, a visita dos padrinhos, o «Compasso Pascal», sempre anunciado com o tilintar de um sino, em que o pároco abençoava os lares e os seus residentes beijavam a cruz.

As Capelas e as Igrejas estavam decoradas com tapetes de pétalas de flores naturais e as casas tinham colchas nas janelas, muito vistosas ao passar da procissão.

No dia de Páscoa não havia uma refeição especialmente típica, mas era certamente de carne, havia as ofertas de ovos e coelhos de chocolate, amêndoas, frutos secos, vários doces e o folar encimado por ovos.

Ao longo dos séculos, estes rituais religiosos da Páscoa conviveram com rituais pagãos, sendo na Figueira da Foz os mais conhecidos o “Enterro do Bacalhau”, a “Queima do Judas” e a “Serração da Velha”.
Estes rituais festejavam o termo da Quaresma, o fim da abstinência e do jejum e a celebração do renascimento da Natureza.

Ainda hoje os figueirenses saem à rua com estes rituais pagãos, em memória do antigo teatro popular burlesco declamado sobre textos atuais de crítica política e social, como nos ancestrais «Autos da Paixão e do Ramo» realizados durante a Semana Santa.

«SERRAÇÃO DA VELHA»

A “Serração da Velha” consiste numa encenação do julgamento e condenação de uma velha à morte, quando um grupo de foliões serra uma tábua ou um caixão de madeira dentro do qual a velha berra para não ser serrada, ao que o povo responde em algazarra: “Serra a velha! Serra a velha!”

A “Serração da Velha” tem lugar na noite de 4ª Feira da terceira semana da Quaresma, simbolizando a morte do Inverno, mas com a sua ressurreição se iniciará a Primavera, a regeneração e a renovação da vida.

«ENTERRO DO BACALHAU»

No “Enterro do Bacalhau” comemora-se o fim da abstinência da carne durante os 40 dias da Quaresma, período onde se comia muito bacalhau, porque então era muito barato! Comemora-se no sábado de Aleluia, imediatamente antes do dia de Páscoa, com um desfile organizado principalmente pela «Sociedade Filarmónica 10 de Agosto», que bem teima em manter esta tradição.

Aquela coletividade, popularmente conhecida como a «Teimosa», anuncia que “cumpre o doloroso (ou talvez não) dever de informar que o cortejo fúnebre do ‘defunto bacalhau’ irá percorrer as ruas da cidade”, no sábado de Páscoa, a partir das 21h00.

O espetáculo desenvolve-se pelas ruas da Figueira, com paragens pré-determinadas, numa representação com caraterísticas de teatro de rua. O cortejo segue num passo lento e cadenciado, marcado pela filarmónica, a qual toca uma marcha lúgubre e serena.

Populares, militares, carrascos, juízes, advogados de defesa e de acusação, o oficial de diligências, testemunhas e maldizentes constituem o cortejo de figurantes. Um bacalhau gigante encabeça o séquito popular, archotes iluminam a comitiva, onde sobressaem carpideiras e cozinheiros armados de garfos e facas.

As intervenções do orador versam “sobre o país, a cidade e as suas gentes, num registo crítico, atento e bem-disposto”, e ocorrem em 5 locais do percurso, o primeiro na rua da República e os seguintes junto ao Mercado Municipal, à porta do Casino e, já de regresso à sede da filarmónica, na Praça 8 de Maio e na rua da Restauração.

O réu, isto é, o bacalhau, defende-se, mas acaba invariavelmente por ser condenado à morte, e depois sepultado perante os gritos de agrado e euforia a que os presentes se entregam.

«QUEIMA DO JUDAS»

A “Queima do Judas” é a representação da vingança popular sobre o pérfido Judas Iscariotes, traidor do seu mestre Jesus Cristo. Na tradição figueirense, Judas era representado por um boneco mal vestido, um fantoche ridículo que percorria as ruas da Figueira, elevado em cordas e paus, transportado por populares em altas algazarras.

Após o repique festivo dos sinos da Igreja Matriz, atraindo grossa multidão de populares, Judas era violentado, ridicularizado e amesquinhado no meio de uma infernal zaragata que recrudescia a cada golpe de pau certeiro que lhe dirigiam.

Depois de escarnecido, vilipendiado e golpeado, o cortejo terminava com Judas espatifado e queimado no sábado de Aleluia, véspera de Páscoa.

Na “Queima do Judas”, ou “Malhação do Judas”, celebra-se o castigo de Judas Iscariotes, um dos doze discípulos de Jesus Cristo, o qual traiu o seu mestre em troca de trinta moedas de prata, entregando-o a Pôncio Pilatos, governador da província romana da Judeia durante o reinado do imperador Tibério. Judas deu um beijo a Jesus, como combinado com os guardas romanos que o pretendiam deter, e assim o identificou, e de imediato o prenderam. É por essa razão que relacionamos a traição com a expressão “beijo de Judas”.

Depois de detido, Jesus foi acusado de dois crimes, de “blasfémia”, crime prescrito na lei judaica, por dizer que era Filho de Deus, e ainda do crime de “sedição”, por se considerar o Rei dos Judeus, o que para os romanos era uma sublevação contra a sua autoridade. Para a “blasfémia” o castigo era o apedrejamento, de acordo com a lei judaica, e para a “sedição” aplicava-se a crucificação pelas leis romanas.

Por que o prenderam, julgaram e crucifixaram? Porque Jesus era um barril de pólvora numa região ocupada pelos romanos e, temendo a revolta popular, os colonizadores, isto é, as autoridades romanas, em conluio com alguns setores da elite judaica, tiveram de eliminar o seu líder, o qual se intitulava «Rei dos Judeus».

Pilatos condenou Jesus de Nazaré à morte, por crucificação, em Jerusalém, e na cruz mandou inscrever o acrónimo INRI, Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum, cuja tradução é «Jesus Nazareno Rei dos Judeus». Este episódio, minuciosamente descrito em Mateus 27, mostra bem a fragilidade humana, a traição, a cobardia, o poder desmedido e a injustiça.

É interessante registar como Pilatos “lavou as mãos”, esquivando-se da responsabilidade de julgar Jesus, sob a pressão política dos líderes judeus de Jerusalém, que desejavam eliminar Jesus a todo o custo. O momento culminante do julgamento ocorreu quando Pilatos ofereceu à multidão a escolha entre libertar Jesus ou Barrabás, um criminoso conhecido.

O povo, manipulado pelos líderes religiosos judeus, escolheu pela libertação do criminoso e pela condenação do inocente. Após a condenação, Jesus é brutalizado pelos soldados romanos, vestem-lhe um manto escarlate, ridicularizam-no com uma coroa de espinhos e conduzem-no ao local do suplício final, carregando uma cruz, onde foi crucifixado entre dois criminosos.

É esta a história, que sempre se repete, é esta a representação vivida da injustiça, da ocupação ilegítima de territórios, da colonização, do fanatismo religioso, do poder desmesurado, da fragilidade das escolhas do povo, das insuficientes capacidades de quem decide e das suas sentenças poderem ser tomadas por influência de agendas ocultas.

O remorso chegará, ou não, sabendo-se que Judas Iscariotes se enforcou, atormentado pela traição que cometera ao seu mestre.

(imagens do espólio do autor ou da Paróquia de Buarcos)

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AUTOR

Fernando Curado
Natural do Alqueidão, Figueira da Foz, Fernando Curado é um engenheiro civil aposentado, especializado em engenharia sanitária. Esteve sempre ligado a entidades públicas. Atualmente reside em Beja. Há 10 anos, assumiu estudar a história da Figueira da Foz e divulgá-la de forma sintética. Já o faz desde 2015. E está só no início.

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